Apontamentos.

O Novo Testamento — ou o Livro das Subtilezas

No Evangelho de Mateus, lemos no início do Capítulo 24 as seguintes palavras: «E Jesus, saindo do templo, estava para se ir embora quando os seus discípulos vieram para lhe apontar as construções do templo. Mas ele, respondendo, disse-lhes: "Não vedes todas estas coisas? Amém vos digo: não deve ser aqui deixada pedra sobre pedra que não será desmoronada".»

Ora esta frase sobre a «pedra sobre pedra» ocorre também em Marcos (13:2) e Lucas (21:6), mas com subtis diferenças. Como anoto no 1.º volume da minha tradução da Bíblia (p. 136), é Lucas que nos dá uma frase mais límpida em grego e, por isso, em muitas traduções do Novo Testamento (não só em português, mas noutras línguas também), as três passagens dos três evangelistas são traduzidas de modo a serem iguais (iguais a Lucas, entenda-se).

O problema da uniformização é que se perdem as subtilezas; perde-se o perfume próprio do estilo belíssimo de cada evangelista. Na minha tradução, apresento as três passagens de forma diferenciada, mas confesso que tive dificuldade em encontrar uma maneira de transpor para português as características delicadas de cada forma verbal grega: conjuntivo aoristo passivo no caso de Mateus, seguido de indicativo futuro passivo; em Marcos, ambos os verbos no conjuntivo aoristo passivo; em Lucas, ambos os verbos no indicativo futuro passivo.

Para estas diferenças serem palpáveis na tradução portuguesa, é preciso andar às voltas para encontrar soluções, sempre na frustração (do ponto de vista do tradutor) de sabermos que quem vai ler o texto em tradução, por muito que o tradutor se tenha esforçado, não vai ter a «experiência completa», digamos assim, que só é oferecida pela leitura do texto em grego.

Uma preocupação grande que me acompanha — e que constitui um dos grandes motivos que me levou a traduzir o Novo Testamento — é que as gerações futuras vão ter cada vez mais dificuldade em conhecer estas subtilezas no texto do Novo Testamento. Nas universidades, estamos a ver na prática que os 6 semestres de Grego que oferecemos a alunas e alunos que partem do zero no 1.º semestre não chegam para eles saírem licenciados com o nível de competência que era normal na minha geração, em que tínhamos uma licenciatura em 4 anos, cujo nível 1 de Grego pressupunha 3 anos de estudo anterior (correspondentes aos 10.º, 11.º e 12.º anos).

Por outro lado, estamos a ver cada vez mais difundida a prática das traduções «livres» da Bíblia, que reescrevem o texto de modo a torná-lo mais fácil e compreensível. Nessas traduções, a salvaguarda das subtilezas é inexistente. O facto incontornável é que o texto da Bíblia — e concretamente do Novo Testamento — não é fácil nem acessível. E, ainda assim, os Quatro Evangelhos ainda são dos textos linguisticamente menos difíceis. Como verão todas as pessoas que, a partir de 24 de Março, sentirão curiosidade em ler o 2.º volume da minha tradução da Bíblia, encontramos nos textos epistolográficos do Novo Testamento frases que são tão difíceis de entender como um verso de Rilke, de Hölderlin ou de Herberto Helder.

Uma coisa vos prometo desde já: não facilitei uma única frase, uma única palavra, uma única sílaba. As subtilezas — na medida das minhas forças como tradutor — foram milimetricamente salvaguardadas. Para memória futura.

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